Levando ajuda e a palavra de Deus a todos os povos
Entre os homens que integraram aquele grupo seleto de ministros que tomaram parte na organização da Igreja Presbiteriana Independente, avulta a personalidade de Caetano Nogueira Junior. Cada um deles tinha um dom diferente, mas todos se devotaram, a seu modo, a um ministério eficiente e produtivo.
Nasceu ele na cidade de Pouso Alegre, estado de Minas Gerais, a 29 de fevereiro de 1956, sendo filho de Caetano Luiz Gomes Nogueira e D. Maria Bárbara Funchal. Esta era natural da Ilha da Madeira. Seus ascendentes eram católicos sinceros e o filho sempre demonstrou espírito religioso e temente a Deus. Casou-se com D. Maria Generosa Messias Nogueira e deste consórcio nasceram 10 filhos. Todos crentes, havendo dois que são presbíteros e um diácono.
A conversão do Rev. Caetaninho (diminutivo por que era conhecido) deu-se na cidade de Caldas, onde sua família viera residir. Diz o Rev. Themudo Lessa que era filho na fé e discípulo do Rev. Miguel Gonçalves Torres. Realmente é assim, porém a semente do Evangelho fora-lhe lançada no coração pelo Rev. Roberto Lenington, segundo testemunho do Rev. Dr. W. A. Waddell. De fato, residindo em Brotas, fez o Rev. Lenington uma viagem missionária ao sul de Minas, pregando o Evangelho em Patrocínio, Moji-Mirim, Borda da Mata, Pouso Alegre, etc. Em 15 de maio de 1872 estava em Caldas, onde pregou numa sala a numeroso auditório, convidado por ele mesmo. Entre as famílias que compareceram ao culto estava representada a dos Nogueira, pela pessoa de um moço chamado Caetano. Seus pais não vieram, mas fizeram questão de que a família se representasse! Durante o ato religioso, o missionário Lenington tinha de orar, pregar e cantar, pois estava sozinho. Quanto ao orar e pregar tudo ia bem, mas não tinha voz para cântico. Um defeito qualquer o impedia. Somente sabia um hino de cor, ensinado por uma de suas filhas e o cantava com os olhos fechados para não perder a música... Pois bem, o culto foi realizado, a Palavra de Deus semeada e o hino 26 (S.H.) cantado! De tudo que viu e ouviu, o jovem Caetano só se impressionou com aquela atitude mística do pregador, bem como com as palavras e música do hino. Voltou ao lar e contou tudo! Indo no outro dia para a roça, vieram-lhe à mente a letra e melodia do cântico e começou a solfejá-la..., mas que significavam, que queriam celebrar? Qual o ensino daquela primeira estrofe:
“Jesus Cristo já morreu”;
Os pecados já pagou;
Pela morte que sofreu
Vida para nós comprou”?
E assim, sabendo que algum tempo depois, por ali novamente passava um ministro protestante, o Rev. Miguel Torres, foi à sua procura e encontrou nele o guia que o levou a Cristo.
Convertido que foi ao Evangelho, sentiu-se chamado para o ministério. Mil e uma dificuldades lhe tolhiam os passos, porém venceu a todas pela fé e oração. Era casado nesse tempo. Tinha o seu lar para manter e filhos para criar. No entanto, aos pés de Miguel Torres, o novo Eliseu buscou merecer a capa de Elias... Encetou os estudos com seu pai espiritual, acompanhando-o e auxiliando-o nas suas viagens evangelísticas. Lutou corajosamente e pôde instruir-se suficientemente para ser ordenado e realizar um magnífico ministério. Conhecia muito bem o latim; falava e lia corretamente o francês; era doutor na Teologia, na história eclesiástica e nas ciências gerais. Finalizou seus estudos no Seminário do Rio, onde prestou exames.
Foi licenciado no dia 2 de setembro de 1885, na cidade de Sorocaba, no templo da Rua Boa Vista. Aceitando convite, foi colocado à frente da Igreja de São Bartolomeu, hoje Pádua Dias, no sul de Minas Gerais. No ano seguinte, a 3 de setembro de 1886, no Rio de Janeiro, na Igreja de Barreira, por ocasião da reunião anual do Presbitério Rio de Janeiro, foi solenemente ordenado. Seu sermão de prova versou sobre Hebreus 7:25: “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles”.
Conforme a praxe daquele tempo, o Concílio dava ao novo ministro uma Carta de ordenação, que lhe servia ao mesmo tempo de diploma e prova de idoneidade espiritual e intelectual. Por interesse histórico transcrevem-se aqui seus dizeres, impressos num pergaminho: “ Igreja Presbiteriana. Carta de Ordenação. O Presbitério do Rio de Janeiro, reunido na cidade do Rio de Janeiro, convencido da aptidão de seu Licenciado Caetano Luiz Gomes Nogueira Júnior para edificação espiritual da Igreja, e depois de haver este prestado os exames de suficiência e adotado a Confissão de Fé, Catecismos, Governo e Disciplina da Igreja Presbiteriana, procedeu a ordená-lo como Ministro do Santo Evangelho, segundo a Constituição e Ordem da Referida Igreja, em sessão de 3 de setembro de 1886, pelo que lhe é passado a presente carta. Rio de Janeiro, 3 de setembro de 1886. a)José Zacarias de Miranda, moderador; Modesto Perestrelo Barros de Carvalhosa, secretário permanente”. Está ainda selada e registrada na Secretaria da Província de Minas Gerais do Império do Brasil.
Entrando o Rev. Caetano para o ministério ativo, demonstrou desde logo seu verdadeiro espírito de pastor e evangelista. Continuou à frente da sua amada Igreja de Pádua Dias, evangelizando todo o sul de Minas, onde, até hoje, seu nome e obra ainda são recordados e abençoados. Mais tarde mudou-se para a fazenda do Pinhal do Campestre, berço da família Franco. Ali morou vários anos pastoreando o rebanho local, bem como o de Botelhos, Pouso Alegre, Caldas Borda da Mata, etc. Depois transportou-se para a fazenda do Guaricanga, no estado de São Paulo. Daí viajava pelo sertão paulista, chegando mesmo até Goiás e Triângulo Mineiro, onde, como o Rev. Álvaro Reis, organizou diversas igrejas.
Foi um verdadeiro ministro de Deus, sendo sua obra toda realizada nas fazendas e no interior. Não exerceu seu ministério em cidades. Seu trabalho foi todo rural, porém fê-lo duma maneira esplêndida e abnegada. Viajava quase sempre a cavalo, sujeitando-se às mil peripécias da caminhada. Foi por isso apelidado: “o evangelista dos sertões”. Era amigo do povo da roça e sua pregação simples e ungida era facilmente entendida! Gostava de ensinar hinos, possuindo boa voz e entendendo de música. Caracterizou-se pela bondade do seu coração, pela simpatia radiante e pelo espírito de oração. Orava a altas horas da noite em favor do seu rebanho. Vivia perto de Deus, buscando fortalecer a sua alma para os duros trabalhos da sua vasta seara.
O presbítero Alberto da Costa, tecendo seu necrológio, disse o seguinte: “Dizer o que era o Rev. Caetaninho é repetir o que a Igreja toda sabe de ciência própria: inteligência pronta e lúcida, muito mais cultivada do que parecia; coração sem dólo, sem ódio, cheio de ternura e de amor; espírito humilde até o pó; alma grande e generosa; cristão por dentro e por fora e que tudo se retratava no seu gesto, no seu todo e na sua palavra tosca e desataviada, mas impressiva e poderosa”.
Tendo amor à verdade e à pureza das doutrinas bíblicas, lançou-se francamente na corrente anti-maçônica quando, por ocasião do Sínodo de 1900, em Campinas, o Rev. Eduardo Carlos Pereira lhe expôs os princípios e práticas anti cristãs da maçonaria.
A partir daí, pôs-se ao lado da corrente independente. Na noite de 31 de julho de 1903 foi seu nome aclamado como moderador do 1º Presbitério Independente, em virtude da desistência do Rev. Eduardo Carlos Pereira.
Era reconhecido por seus companheiros como um verdadeiro homem de Deus!
Como ministro, “foi ativo, esforçado, piedoso. Era crente convicto na Palavra de Deus, na vida íntima, no lar doméstico, nas casas dos irmãos e amigos, nos concílios da Igreja, no púlpito, em toda parte era ele a providência em ação e a todos comunicava e levava conselho, coragem, vigor, entusiasmo, inspiração”.
Era ainda moço quando a morte o transladou para os céus. Contava apenas 53 anos de idade. Estava viajando a cavalo pelo sertão, bem longe do lar, quando um antraz o prendeu ao leito em casa de crentes humildes da família de José Esteves. Sem recursos médicos e o conforto das grandes cidades, só recebeu os cuidados de alguns corações amigos, bem como de um dos seus filhos – o Samuel. Deus quis que ele morresse com a mesma simplicidade com que tinha vivido! Foi a 20 de abril de 1909, à 1 hora da tarde, que ele expirou. Conta-se que suas últimas palavras foram estas: “Sei que tenho muitos amigos na terra, muitos, muitos; mas eu tenho um que é o meu maior amigo, sobre todos os amigos. O meu maior amigo é Cristo: Cristo é o meu maior amigo”.
Seus restos mortais descansam no cemitério da Vila de Ariranha, município de Monte Alto. Sobre o túmulo foi colocada, pela Comissão de Missões Nacionais, uma lápide memorial em nome e gratidão da Igreja Independente. Nela está gravado o texto de Gál. 6:14, o qual expressa a vida consagrada do Rev. Caetaninho, quando “aponta à Igreja Independente o caminho do dever na gloriosa evangelização de nossa Pátria”.
O Rev. Benedito Ferraz de Campos, orador oficial da Igreja Independente, disse ante seu túmulo estas palavras:
“Monte Alto, nos profundos desígnios de Deus vai ser, talvez, o Pisga de nossa gloriosa visão independente; o túmulo que aqui se ergueu vai ser um perpétuo ensinamento à Igreja e aos missionários vindouros”.
“Vigia da solidão, atalaia sertanejo, nosso amado companheiro, na saudosa memória de seu ministério, erguer-se-á contínuo sobre a campa isolada da humilde necrópole em luminosa visão, como Evangelho aconchegado ao peito, nos lábios esse texto admirável, apontando à Igreja Independente o caminho do dever”.
José Rodrigues da Costa Júnior.
Fonte: O Estandarte - 31 de julho de 1977